sexta-feira, 16 de novembro de 2012

O homem que resolveu contar apenas mentiras



- Naquela manhã, acordou disposto a só contar mentiras. A não dizer uma única verdade. A ninguém. Nem à própria mulher. E assim quando afirmou: ‘vou para o trabalho’, empregou sua primeira mentira. Não ia. Tinha resolvido faltar, esquecer o escritório, a mesa, os papéis. 

- Parar, ficar na rua. E quando disse bom-dia para o zelador do prédio, também mentia, porque odiava o zelador, um oportunista, que não conservava o prédio, fazia fofocas entre empregadas, pedia gorjetas, ganhava porcentagem na compra de materiais de limpeza. E quando disse o endereço ao motorista do táxi, também mentia, não pretendia ir para aquele lugar. Mas o chofer exigira o destino pois as pessoas vivem exigindo as coisas. E nem sempre temos vontade ou possibilidade de fazer. E as exigências crescem e se tornam parte de nossa vida diária. Nos acostumamos com elas, nos acomodamos, sem perceber que cada concessão é um pedaço da gente mesmo, envenenado, que a gente engole. E quando o homem entrou no bar e pediu café, mentia, porque não queria café. Estava apenas fazendo um teste, enquanto observava o gesto maquinal daquele empregado que destacava uma ficha e a entregava. Será que aquele funcionário, alguma vez, imaginou que alguém pudesse não querer café? Pedir, por pedir, mas não querer? Nem sequer desejar ver a xícara fumegante?

- Com a ficha na mão, saiu pela rua. Outra mentira, não queria ficar na rua. Mas se entrasse no escritório, seria mentira maior. Odiava o escritório, o empregado, os colegas. De duas mentiras, preferiu a menor, ainda que, ponderando, descobrisse que ficar com a mentira menor era igualmente fuga , mentira, porque nesse dia tinha decidido mentir. E quando se decide uma coisa, o melhor é levá-la até o fim.

- Andou. Pensando como a cidade era bonita com seus prédios batidos de Sol e os vidros dando mil reflexos. Bonita com a gente que andava apressada para trabalhar e construir alguma coisa. Bonita na tranqüilidade da vida, no sossego das casas, na calma que se estampava nos rostos das gentes. Bonita no que oferecia de futuro e de perspectivas. Bonita nos carros que andavam em fila, ruidosamente, um atrás do outro, sempre para frente, sempre para frente. Bonita na fumaça negra que escapava dos veículos e subia em espirais, milhares de fumaças reunidas, formando uma bela nuvem negra, como um negro véu, que surgia sobre a terra, espanando o Céu.

- Andou sem querer andar. Viu, sem querer ver. Sentiu, sem querer sentir. Cansou, sem querer cansar. Tudo uma grande mentira neste dia. Como mentira era a vida que ele vivia, cotidianamente, falsificada, pré-fabricada, exaurida, imposta. Suada. Que repousante era viver este dia de mentira. Negar tudo, reviver.

- Andou até a hora de voltar para casa. Outra mentira, não queria voltar para casa, o lar, o aconchego, o refúgio, a fuga. A verdade de sua vida encerrada entre aquelas quatro paredes, a família, o amor, o carinho, o aconchego, o lar, o refúgio, a fuga, a realidade. Não voltar e andar. Percorrendo as ruas, entrando nos prédios, conversando com as pessoas. No entanto, não tinha vontade de conversar. Sabia que precisava, mas não tinha vontade de falar. Falava pouco, sua língua andava entorpecida, sem prática. O medo é que um dia desacostumasse e perdesse a capacidade de se comunicar. E como andava difícil se comunicar. Ficou parado numa esquina, esperando a noite passar. E quando o dia chegou, tinha acabado o período da mentira, podia enfrentar de novo a verdade. E disse bom-dia ao porteiro, deu o endereço ao táxi, ligou para a mulher e o patrão. Disse no emprego que estava doente. E, na verdade, estava.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Reencontro






Fazia muito tempo que eles não se encontravam. Ficaram perdidas as lembranças, no tempo e no abismo do esquecimento. Passaram-se os anos e mudaram-se as estações muitas vezes. Os dois  enfim "amadureceram."

Em um ano qualquer, distante de qualquer coincidência e de qualquer propósito, eles se encontram em uma livraria. Voltaram-se as lembranças por alguns instantes, o coração surpreso e os olhos enxergaram um novo tempo. 

Tudo mudou.

De repente ele:

- Você sabe dizer que horas fecha aqui?

Ela:

- 21 horas.

Estas frases foram as que sobraram, diante das circunstâncias e dos sentimentos de outrora.

Núbia Albuquerque. 




domingo, 5 de agosto de 2012

Felicidade?


Disse o mais tolo: "Felicidade não existe."
O intelectual: "Não no sentido lato."
O empresário: "Desde que haja lucro."
O operário: "Sem emprego, nem pensar!"
O cientista: "Ainda será descoberta."
O místico: "Está escrito nas estrelas."
O político: "Poder"
A igreja: "Sem tristeza? Impossível.... (Amém)"
O poeta riu de todos,
E por alguns minutos...
Foi feliz!

O Teatro Mágico

Nossa Amizade


Boqueirão PB,20 de Outubro de 2011,
Aos nobres amigos da 2007.2... (UEPB Geografia 2007.2 diurno) Olá caro leitor,é com grande satisfação e alegria que escrevo essa carta para os amigos com os quais vivi indeléveis momentos,que serão guardados para sempre em minha memória (e acreditem quem me conhece sabe que ela é privilégiada...) e para quem ainda não me conhece,permita que eu me apresente...Meu nome é Edilson, tenho 23 anos e vivi a maior parte de meu tempo numa comunidade rural chamada Lajes,(imaginem só um rapaz que viveu a maior parte de sua vida na zona rural de uma cidade do interior da Paraíba!!!) e além de matuto fui também prosélito de uma seita de judaizantes do Cristianismo (a saber a Igreja Adventista do Sétimo Dia conhecida também pela sigla IASD) resumindo,fui por muito tempo um completo alienado,e "fechando com chave de ouro" sou de família humilde.Apesar disso sempre tive um hábito muito bom,que é o de ler muito sobre os mais variados assuntos,e graças a esse hábito consegui ser aprovado no Vestibular de Geografia e tive o privilégio de conhecer uma galera inteligente e animada a quem dediquei essa carta,e acredite gente lembro-me de todos os colegas e também de todos os professores (aos que não conhecem a história eu só pude acompanhar essa turma nos dois primeiros anos mas depois me atrasei devido a inúmeros problemas)...Mas não é apenas isso que quero dizer você meu caro amigo leitor (ou leitora),o que quero dizer é que após tanto tempo eu pude saber e sentir o sabor de uma verdadeira Amizade e gostaria de dizer que é muito bom ter bons momentos para recordar e sentir saudade,e realmente eu entendi quantas coisas valiosas temos em nossa Vida e quase todas só perceberemos o seu real valor quando as perdemos, hoje em dia eu posso dizer que a Saudade me fez perceber o quão valiosos são nossos amigos em nossa Vida, e acreditem eles fazem a diferença...Amigo,digo isso com toda franqueza,façam a sua vida valer a pena,sonhem,tentem,lutem e vençam! Tornem cada dia de sua vida mais que especial afinal ele é único,e independentemente das dificuldades e dos recursos que você tenha lute com Força e Fé,confie em Deus e acredite em si mesmo,nos seus talentos,capacidade e potencial,afinal todos nós temos tudo isso,e se você cair tenha a certeza que seu Amigo lhe estenderá a mão para lhe ajudar e em especial, peça ajuda ao Maior de todos os Amigos, o "Carpinteiro de Nazaré" pois todos podem te abandonar, menos aquele que deu a sua Vida por Amor aos seus amigos (S. João 15:13-15)...Finalizando amigos, VIVAM a Vida de uma maneira inesquecível!
Atenciosamente,
Edilson Braz Brito 
PS: Minha cara e grande amiga Núbia,certo dia me escreveste uma carta pelo meu aniversário,tenho essa carta até hoje e estou te retribuindo sua atenção e carinho... Fica com Deus e se cuida!

"Mulher Vestida de Gaiola"



Parece que vives sempre
de uma gaiola envolvida,
isenta, numa gaiola,

de uma gaiola vestida,

de uma gaiola, cortada
em tua exata medida
numa matéria isolante:
gaiola-blusa ou camisa.

E assim como tu resides
nessa gaiola, cingida,
o vasto espaço que sobra
de tua gaiola-ilha

é como outra gaiola
igual que o mar: sem medida
e aberto em todos os lados
(menos no que te limita).

Pois nessa gaiola externa
onde tudo tem cabida,
onde cabe Pernambuco
e o resto da geografia,

três bilhões de humanidade
e até canaviais de usina
sei que se debate um pássaro
que a acha pequena ainda.

Tal gaiola para ele
mais do que gaiola é brida;
como cárcere lhe aperta
sua gaiola infinita

e lhe aperta exatamente
por essa parede mínima
em que sua gaiola-mundo
com a tua faz divisa.

Contra essa curta parede
entre ti e ele contígua,
que te defende e para ele
é de força, se é camisa,

todo o dia se debate
a sua força expansiva
(não de pássaro, de enchente,
de enchente do mar de Olinda).

Por que ele a quem sua gaiola
de outros lados não limita,
deseja invadir o espaço
de nada que tu lhe tiras?

por que deseja assaltar
precisamente a área estrita
da gaiola em que resides,
melhor: de que estás vestida?"

João Cabral de Melo Neto